quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

#7

NAS TETAS DO SISTEMA

CAP. III
... E foi melhor para mim, você deve estar se perguntando o que eu fiz, o porquê de estar aqui contigo. Aquela loja era do meu falecido pai, deixou de herança, assim que meus pais se separaram aquele lugar foi à única lembrança deixada, eles me davam uma vida de se invejar por qualquer garota, meus mimos eram tirados daquele lugar, eu me sentia bem ali. Trazia-me paz por lembrar dos meus momentos de família unida mas hoje o que sobrou foi minha mãe alcoólatra por causa do divórcio e a outra família do meu pai. Nessa altura da vida eu já sabia me virar, quem não souber fazer isso com tudo que você pode ter você é um fracassado, mas isso no fundo não me fazia bem, eu não merecia aquilo, não fiz nenhum esforço. Quero nascer de novo, viver a vida, sentir na pele de como é saber viver, aliás me chamo Renata.
Ficamos nos olhando por um instante, nessa hora eu havia voltado da viagem do pó, ali era eu realmente, era linda mas tinha sede de viver, isso eu notava realmente.
- Então você quer saber como é viver? Eu vou te dizer.
- Saber viver é sair da sua cidade natal com toda sua família sem nada no bolso e enfrentar a selva de pedra em busca de oportunidade e foi isso que fizemos, foi uma guerra até nos ajeitarmos, quando tudo parecia bem à guerra civil não declarada (mas acontece) tirou minha família de maneira bruta, a partir daí fiquei perdido, fiquei a margem de todo, então fui ser marginal, é dessa profissão ilegal que tiro meu sustento e esse colchão que você dormiu, se eu tenho medo de ser preso? O meu único medo é de ter medo, eu não vivo, eu sobrevivo a cada dia , a cada assalto.
- Se você quer conviver comigo ótimo, então começa ajeitando essas roupas que eu roubei de você, porque vamos fazer dinheiro na feira do bairro.
- Nem sequer sei seu nome, qual é? Disse Renata.
- Sou conhecido como Mosca, por sinal tenta não parecer fútil, você espantará a clientela, pega uma muda de roupa minha e veste, será melhor.
 E assim fomos para a feira do bairro, caminhamos um tempo e nos conhecemos um pouco mais, chegando lá os feirantes já vieram me cumprimentar, fiz questão de apresentar a Renata e logo ela ficou conhecida como Rê do Mosca. É nesse tipo de comércio que a periferia gosta, encontra tudo que vêem na TV, tudo a preço de camelô, são aquelas pessoas que mal têm dinheiro para ter a comida na mesa, mas fazem questão de parecer igual a um artista, cantor que vêem por ai, são essas pessoas para quem eu gosto de vender, economizam o inteiro do mês a custo de fingirem que são burgueses fúteis, são uns porcos ignorantes isso sim e sou eu quem sai lucrando nessa mentira ideológica.
 Ela não estava com medo, vendia, negociava, tentava arrancar o máximo da grana do cliente alienado, se fosse eu já havia vendido por qualquer trocado, mas ela na primeira venda faturou quase o dobro do preço da roupa, impressionante. Meu maior assalto foi ela.
- E então, o que acha Mosca? Estou me saindo bem?
 Eu para não comprovar seu grande talento, respondi logo de cara:
- Não se empolgue, você sabe muito bem o que é vender, afinal é dona de uma loja, quer dizer, era.
Tinha um plano para aquela loja, ia ser um cenário ideal, o que será que os parentes da Renata estão pensando agora? É um contraste total. Devem estar desesperados procurando à queridinha, são nessas situações de risco que evidencia um sentimento verdadeiro.
Voltamos da feira, desta vez estava cheio da grana, mérito dela, estava toda feliz por ter sido superior a mim, não gostava nada daquilo e comecei a ficar irritado.
- Está se achando a tal não é?! Isso não é nada além do que faturar à custa da adrenalina desse mundo, no próximo assalto você me acompanha e fim de papo.
Assim que terminei de falar, ela parou de caminhar, me olhou por inteiro, fez cara feia e eu senti sua mão entrelaçando a minha, dizendo:
- Eu vou com você, e sabe por quê? Você tem medo e agora serei seu porto seguro, não importa o que vai acontecer daqui pra frente, quero estar do seu lado.
Como que em sã consciência alguém pode dizer isso?  Será que ela aparentemente igual a mim sentia um ódio tremendo de algo desconhecido? Ali, ela depositou grande confiança em mim, mesmo sem me conhecer, que sentimento doce e que nunca havia sentido, nem ao menos minha mãe havia me transparecido isso. Não posso pensar nisso, há um plano em mim que tem que ser cumprido.
- Esteja preparada amanhã cedo e solte minha mão.
É a falta da minha droga que me faz lembrar dessas merdas, quero me esquecer, chegamos na minha casa e ela dormira novamente em meu colchão.
- PORRA Renata, de novo?
Nem me escutou e foi em sono profundo, aproveitando isso peguei meu pó e relaxei. Saí  louco de casa pensando que havia um escudo de imortalidade em meu peito, fui em direção a loja da Renata, tudo abandonado, nem sequer tinha algum panfleto com a fuça dela de desaparecida. Ela tinha razão, não havia mais sentimentos maternais naquela família e com certeza vou aproveitar dessa fragilidade.
Entrei na loja, já não havia mais nada, tudo limpado, na certa outros marginais passaram e fizeram o rapa, tudo era questão de tempo agora.
- EI VOCÊ?

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