quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

#11

NAS TETAS DO SISTEMA

CAP. IV
- Eu? Eu o que? Abaixe essa voz, ouviu?
Não estava nem aí para as consequencias, já fiquei com uma das mãos prontas para sacar, mas esse velhote não apresentava ameaça nenhuma e eu aqui explodindo de raiva. Se controle, se controle. Ah, foda-se, saquei logo e apontei bem no seu nariz.
- O que você quer velhote? Estouro seus miolos!
- Calma, calma.
Com aquela voz cheia de medo e tranqüilidade. Por que eles possuem essa virtude esplendida?
- Meu jovem, eu só quero saber o que houve com a loja da senhorita Renata, você sabe de alguma coisa?
Senhoria Renata? Pensei eu. Até parece que ela era alguém importante, devia ser a cafetina dos velhinhos, isso sim.
- Não conheço ninguém não, agora se manda,ouviu? Esse lugar vai ficar famoso, então saia.
O velho foi embora com seus passos lentos de uma vida experiente e mais uma vez decepcionado com a juventude de hoje em dia. À uma hora dessas, ele devia estar dizendo: '' No meu tempo isso não acontecia, nem se quer esses moleques saiam de casa, a juventude está perdida''. E está mesmo e quando alguém resolveu reverter esse problema? Quando foi que disseram que eu estou fazendo errado? Não tenho ninguém para me falar isso, eu julgo o certo e o errado, o bem e o mal.
Voltando ao que estava fazendo, faltavam poucos detalhes, arrumei uma tinta preta e pintei a vitrine por completo, ficou tudo escuro e por dentro somente uma cadeira no centro do salão, faltava por fim o comunicador mundial e o olho que tudo vê.
No caminho de volta, encontrei o alvo certo, uma loja de eletrônicos, essas tranqueiras da era digital. Era digital? Por quê? Antes era qual, era analógica? PUTA QUE PARIU, se modernidade é você ver a cada dois meses a mesma pessoa comprando o mesmo produto, porém em versões diferentes e alegando que está ultrapassado, então eu quero andar de charrete pelo Neblon. Porco capitalista! Cheguei em casa, a Renata tinha recém acordado e veio logo dizendo, repetitivamente:
- Faturamos R$ 500,00, olha olha.
- Não me importo, guarda isso aí e se arruma porque dessa vez você vai vim comigo
- Mas Mosca, você não precisa mais assaltar, olha quanto dinheiro, vem ver.
- Não quero saber, guarda e quero você pronta quando escurecer.
Eu já tinha faturado muito mais que aquilo outras vezes, realmente não me importava com a quantidade de grana arrecadada, eu tento descobrir a cada dia a hipocrisia maquiada de cada um, a vida leviana das aberrações que o mundo criou. A lua estava dando suas caras, a escuridão tomava conta de tudo parecendo algum viral, estava na hora. A Renata estava nervosa e apreensiva, lógico nunca tinha feito nada parecido, aquela futilidade não proporciona nada igual.
E então saímos da minha casa parecendo um casal de namorados, não tinha nenhum plano para assaltar a loja de eletrônicos quer dizer, nunca tive planos para nada
- Então Mosca, qual o plano? Perguntou Renata.
Estávamos andando rápido, parei de caminhar e questionei-a.
- Eu tenho cara de alguém que tem um plano?
Pessoas com plano possuem protocolos a serem seguidos criteriosamente, vivem em seus mundinhos patéticos e cheio de regras para a automanipulação, eu poderia ter dito isso a ela, mas eu a afetaria diretamente. Pessoas fúteis com seus mundos fechados planejados.
- O que faremos então Mosca?
- Eu não sei oras, há centenas de possibilidades, como você pode planejar algo desconhecido? Vamos fazer o que temos que fazer.
Até chegarmos na cena pude reparar que meu rosto estava anêmico e que ainda tinha uma trouxa de heroína no bolso, era o que eu mais queria naquela hora, essa loja não ficava muito longe, já era noite e estávamos há menos de cem metros onde havia um segurança meia boca na frente. Era um rapaz jovem, devia ter seus 20 e poucos anos, o primeiro emprego talvez, todo atento e concentrado com uma pistola na cintura, mal sabia o que iria acontecer.
Ficamos ali parados por um tempo, tempo suficiente para cheirar aquilo tudo, Renata não disse uma palavra e apenas estava com uma barra de ferro na mão. Estava fora de mim, minha aparência interna era totalmente outra, quando me dei por percebido ela estava indo em direção ao segurança que estava sentado em frente ao comércio.
- Renata, volte aqui agora, Renata volte.
Tentava chamar sua atenção, mas nada fazia ela olhar para trás, Renata atravessou a rua e vi de longe que o jovem segurança começou a agir em modo de risco, também àquela hora da noite uma mulher do tipo dela indo em sua direção segurando uma barra de ferro em uma das mãos, ele devia estar pensando que alguma coisa estava errada e realmente estava. Ele ia se dar mal, não tinha mais jeito.
- Ela vai conversar com ele, ela vai fazer, vai fazer. Vai dar merda. Disse para mim mesmo.
Então saí correndo, até chegar em uma distância que poderia acertar ele e assim fiz, dois tiros rapidamente nas pernas, gritou igual uma mulherzinha e caiu no chão. Nesta hora a Renata estava perto dele e ouvia os pedidos de súplica do coitado.
- Me ajuda por favor, alguém atirou em mim. Socorro.
Ela olhou para trás e me viu guardando arma na cintura, nós nos olhamos, estava séria e compenetrada, parecia saber o que estava fazendo. Então ela fez sim, balançando com a cabeça.
- O que ela vai fazer? Pensei.
- RENATA? NÃO! Gritei.

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